quarta-feira, 29 de maio de 2013



No entanto, esse princípio de co-engendramento não se resume à relação dialética na qual se encontram sujeito e objeto tal como concebido nos pressupostos epistemológicos da psicologia comunitária. Para os autores, os processos de subjetivação devem sobretudo levar em consideração um outro plano, no qual as formas que determinam sujeito e objeto ainda se encontram indefinidas. Assim, Deleuze e Guattari (1995) falam da existência de duas dimensões que a produção de subjetividade comporta e que concorrem igualmente para a criação da realidade: o plano das forças ou dos afetos e o plano das formas constituídas.
O plano das formas remete a um modo de apreensão do mundo que diz respeito às formais atuais dos fenômenos, em outras palavras, as formas provisórias através das quais a subjetividade se reconhece. Partindo de uma ontologia do devir, que se traduz na afirmação de Tarde de que “existir é diferir-se” (TARDE, 2007), as formas assumidas pelos corpos são desenhos sempre provisórios. Neste sentido, corpos se referem tanto a indivíduos quanto a processos grupais ou coletivos sociais. Uma instituição pode ser descrita pelo seu organograma e pelos seus objetivos formais; no entanto, a descrição de suas formas atualizadas não esgota os processos micropolíticos que uma instituição atravessa no seu dia a dia, e que aos poucos tornam obsoletas as velhas formas de organização do coletivo que ela encerra.
Se, como diz Rolnik, “conhecer o mundo como matéria-forma convoca a percepção, operada pelos órgãos de sentido, [...] conhecer o mundo como matéria-força convoca a sensação, engendrada no encontro entre o corpo e as forças do mundo que o afetam” (ROLNIK, 2003, p.1). No plano das forças de que falam Deleuze e Guattari, circulam vetores pré-individuais heterogêneos, sejam políticos, sociais, tecnológicos, econômicos ou artísticos, e que concorrem para a produção de subjetividade. Essas forças são linhas de virtualidade traçadas no agenciamento de intensidades, e que produzem determinadas figuras subjetivas, ora aproximando-se de modelos serializados, ora desenhando processos de singularização.