terça-feira, 29 de março de 2016

fragmentos destópicos de um conchavo militar-alienígena

Antes dos aliens chegarem, as pessoas brigavam, podiam discordar. Agora, cada região, cada povo, simplesmente obedece. E na cabeça, lá no alto, não sabemos mais se o que está é alien ou humano. É algo que surgiu da miscigenação. E comanda, e anda, e rula, como uma régua. Mas eles são todos muito estranhos, nós não temos idéia do que eles fazem em seus tempos a sóis. São metidos a vicários e falam sempre esmiolice. Mas erradicaram a guerra. Com armas a laser. E agora vivemos em paz. Mas que paz é essa? Quer dizer, quem tem as armas são eles. Ninguém mais precisa brigar, mas são eles que estão armados. E as pessoas somem. Fazer reunião na sala de casa dá cadeia. As aulas, nas universidade, são vigiadas, porque alguns professores, como sociólogos, historiadores e qualquer pensador que se preze, podem vir a flertar ideologicamente com um DESEJO PELA LIBERDADE que fervilhará nos caudos mais profundos de qualquer um que ouvir seu brado retumbante. E por isso saberem, vigiam. E sabem dos pernicivos e pornorosos que podem vir a falar qualquer merda e gerar um debate que simplesmente não é pra acontecer. É claro que as coisas estão indo bem. De que outro jeito seria? É claro que os militares e os aliens estão fazendo o melhor pelo nosso pais e pelo mundo, eu diria, propiciando direitos sem os quais nós não poderíamos viver. A família e o culto. A família de pai e mãe, trabalhadores que dedicam seu tempo a jornadas semanais honradas e vivem uma vida de uns aos outros e amor justo. Isso é bom. 

Como não seria? Mas quais seriam os cultos permitidos? Catolicismo, presbiterianismo, pentecostalismo, batistas, umbandistas, não, calma... umbandistas? Calma... Tem que ver, essa galera que quer varar noite orando e fazendo barulho... quem são esses? Esses ai são estranhos. Vivemos o dia. O sol é pra todos. Essa é uma bandeira do partido. A noite é perniciosa. E o único modo de não sê-lo é em silêncio. Que se faça o bendito silêncio para todos. E durante o dia cada um em suas posições, operando, obrando, a serviço da sociedade. Só assim vamos erradicar a pobreza. A verdade é que eu não vejo um pobre há um bocado de tempo. Não sei o que está acontecendo. Alguns falam em remoções. Eu não sei. Os corredores pelos quais ando, os bairros pelos quais transito, não me dão acesso a esses movimentos. Moro num conjunto habitacional. Moro perto do trabalho na firma. Algo está errado, eu posso sentir. Mas simplesmente não sei quando demos o passo em falso.