Antes dos aliens chegarem, as pessoas brigavam,
podiam discordar. Agora, cada região, cada povo, simplesmente obedece. E
na cabeça, lá no alto, não sabemos mais se o que está é alien ou
humano. É algo que surgiu da miscigenação. E comanda, e anda, e rula,
como uma régua. Mas eles são todos muito estranhos, nós não temos idéia
do que eles fazem em seus tempos a sóis. São metidos a vicários e falam
sempre esmiolice. Mas erradicaram a guerra. Com armas a laser. E agora
vivemos em paz. Mas que paz é essa? Quer dizer, quem tem as armas são
eles. Ninguém mais precisa brigar, mas são eles que estão armados. E as
pessoas somem. Fazer reunião na sala de casa dá cadeia. As aulas, nas
universidade, são vigiadas, porque alguns professores, como sociólogos,
historiadores e qualquer pensador que se preze, podem vir a flertar
ideologicamente com um DESEJO PELA LIBERDADE que fervilhará nos caudos
mais profundos de qualquer um que ouvir seu brado retumbante. E por isso
saberem, vigiam. E sabem dos pernicivos e pornorosos que podem vir a
falar qualquer merda e gerar um debate que simplesmente não é pra
acontecer. É claro que as coisas estão indo bem. De que outro jeito
seria? É claro que os militares e os aliens estão fazendo o melhor pelo
nosso pais e pelo mundo, eu diria, propiciando direitos sem os quais nós
não poderíamos viver. A família e o culto. A família de pai e mãe,
trabalhadores que dedicam seu tempo a jornadas semanais honradas e vivem
uma vida de uns aos outros e amor justo. Isso é bom.
Como não
seria? Mas quais seriam os cultos permitidos? Catolicismo,
presbiterianismo, pentecostalismo, batistas, umbandistas, não, calma...
umbandistas? Calma... Tem que ver, essa galera que quer varar noite
orando e fazendo barulho... quem são esses? Esses ai são estranhos.
Vivemos o dia. O sol é pra todos. Essa é uma bandeira do partido. A
noite é perniciosa. E o único modo de não sê-lo é em silêncio. Que se
faça o bendito silêncio para todos. E durante o dia cada um em suas
posições, operando, obrando, a serviço da sociedade. Só assim vamos
erradicar a pobreza. A verdade é que eu não vejo um pobre há um bocado
de tempo. Não sei o que está acontecendo. Alguns falam em remoções. Eu
não sei. Os corredores pelos quais ando, os bairros pelos quais
transito, não me dão acesso a esses movimentos. Moro num conjunto
habitacional. Moro perto do trabalho na firma. Algo está errado, eu
posso sentir. Mas simplesmente não sei quando demos o passo em falso.