sexta-feira, 24 de julho de 2015



Crônica da cidade de Havana
Os pais tinham fugido para o Norte. Naquele tempo, a revolucao e ele eram recem-nascidos. Um quarto de seculo depois, Nelson Valdes viajou de Los Angeles a Havana, para conhecer seu pais.
A cada meio-dia, Nelson tomava o onibus, a guagua 68, na porta do
hotel, e ia ler livros sobre Cuba. Lendo passava as tardes na biblioteca Jose Marti, ate que a noite caia.
Naquele meio-dia, a guagua 68 deu uma violenta freada num
cruzamento. Houve gritos de protesto, pela tremenda sacudida, ate que os passageiros viram o motivo daquilo tudo: uma mulher prodigiosa, que tinha atravessado a rua.
— Me desculpem, cavalheiros — disse o motorista da guagua 68, e
desceu. Entao todos os passageiros aplaudiram e lhe desejaram boa sorte.
O motorista caminhou balancando, sem pressa, e os passageiros viram como ele se aproximava da saborosa mulher que estava na esquina, encostada no muro, lambendo um sorvete. Da guagua 68 os passageiros seguiam o ir-e-vir daquela linguinha que beijava o sorvete enquanto o motorista falava sem resposta, ate que de repente ela riu, e brindou-lhe um olhar. O motorista ergueu o polegar e todos os passageiros lhe dedicaram uma intensa ovacao.
Mas quando o chofer entrou na sorveteria, produziu-se uma certa
inquietacao generalizada. E quando depois de um instante saiu com um sorvete em cada mao, espalhou-se o panico nas massas.
Tocaram a buzina. Alguem grudou-se na buzina com alma e vida, e tocou a buzina como alarme de roubos ou sirena de incendios; mas o motorista, surdo, continuava grudado na perigosa mulher.
Entao avancou, la dos fundos da guagua 68, uma mulher que parecia uma bala de canhao e tinha cara de mandona. Sem dizer uma palavra, sentou-se no assento do chofer e ligou o motor. A guagua 68 continuou sua rota, parando nos pontos habituais, ate que a mulher chegou no seu proprio ponto e desceu. Outro passageiro ocupou seu lugar, durante um bom trecho, de ponto em ponto, e depois outro, e outro, e assim a guagua 68 continuou ate o fim. Nelson Valdes foi o ultimo a descer. Tinha esquecido a biblioteca.

- Eduardo Galeano